Pigarreou.
O gim barato enroscava na garganta. Ainda estava dolorida. Se arrastou para o
banheiro. Não dava tempo para banheira. Mas uma ducha fria bastava. O rímel já
estava no fim. Um rosto fino, mal comido, encarava o espelho. Os olhos. Olhos dez
anos mais velhos que a vida. Os olhos, mortos, guiavam o corpo já conhecido de
muitos. O trago libertou os pensamentos. Suspirou. Não de saudades. Não de
amores. De rotina. A amargura desceu com a ajuda do gim. O cabelo secara. Emoldurava
o rosto com volume selvagem. Preciso retocar a raiz. Retocou o vermelho da boca
para que outros pudessem tirar. Olhou o quarto. Vestiu o roupão de seda. O roupão
de seda manchado. O lençol aguenta mais três. Duas batidas na porta. O próximo
chegara. Abandonou as cinzas no pé da cama.
O que sentia na hora da revelação não
passava nada. A paralisia não permitia o pensar, apenas o respirar. O chão não
sumiu como esperava que o fizesse, mas alguma coisa morria. Morria como havia
esperado. E o velório não tardava a começar. Mas ninguém reconheceu a viúva,
não deram seus sentimentos. Celebravam uma vida alheia.
Não, ninguém vertera uma lágrima, nem ela
mesma. Não havia. Fora uma perda que apenas ela reconhecia. Conhecia. A hora da
revelação se alastrou até o ponteiro girar e girar e girar. Não sobrava nada,
apenas um passado nostálgico que não era o suficiente para morrer ou ser morto.
Não encarava o fim, mas uma suspensão. Um desvio na rotina e um sentimento
perdido.