quinta-feira, 17 de abril de 2014

Soterrado

Novamente via os seus olhos no céu
Que se preparava para devorar a cidade
O ataque, como sempre, vinha de cima,
Com todo o seu peso marrom, marrom terra
A colocar tudo a baixo

Despindo qualquer vestígio de dia
Amargando o azul noturno
Soterrando qualquer suspiro
Seja de amor, seja de saudade


terça-feira, 8 de abril de 2014

Sweet

Pigarreou. O gim barato enroscava na garganta. Ainda estava dolorida. Se arrastou para o banheiro. Não dava tempo para banheira. Mas uma ducha fria bastava. O rímel já estava no fim. Um rosto fino, mal comido, encarava o espelho. Os olhos. Olhos dez anos mais velhos que a vida. Os olhos, mortos, guiavam o corpo já conhecido de muitos. O trago libertou os pensamentos. Suspirou. Não de saudades. Não de amores. De rotina. A amargura desceu com a ajuda do gim. O cabelo secara. Emoldurava o rosto com volume selvagem. Preciso retocar a raiz. Retocou o vermelho da boca para que outros pudessem tirar. Olhou o quarto. Vestiu o roupão de seda. O roupão de seda manchado. O lençol aguenta mais três. Duas batidas na porta. O próximo chegara. Abandonou as cinzas no pé da cama. 

sexta-feira, 21 de março de 2014

Brisa

Tudo o que podia ter sido
E simplesmente não foi
A saudade do seu abraço inexistente, nunca experimentado,
Folha de outono estrangeiro, levada por qualquer vento

sexta-feira, 14 de março de 2014

Maresia

Você quer retomar o posto dos outros
Maré devoradora de todos os castelos
Que ruem com sua mesma frequência

Cegos pelo canto da sereia
Resumem tudo à um rito, ao qual você se rende
Restando apenas a solidão de uma pérola

domingo, 9 de março de 2014

A trava criativa se ativa toda vez que morro, congelo

Me enterro em mim e o ceticismo convém 

Anestesia

O que sentia na hora da revelação não passava nada. A paralisia não permitia o pensar, apenas o respirar. O chão não sumiu como esperava que o fizesse, mas alguma coisa morria. Morria como havia esperado. E o velório não tardava a começar. Mas ninguém reconheceu a viúva, não deram seus sentimentos. Celebravam uma vida alheia.


Não, ninguém vertera uma lágrima, nem ela mesma. Não havia. Fora uma perda que apenas ela reconhecia. Conhecia. A hora da revelação se alastrou até o ponteiro girar e girar e girar. Não sobrava nada, apenas um passado nostálgico que não era o suficiente para morrer ou ser morto. Não encarava o fim, mas uma suspensão. Um desvio na rotina e um sentimento perdido. 

sexta-feira, 7 de março de 2014

Linguagem

Não eram versos de amor
Não pretendiam arrancar suspiros apaixonados
Traziam o calor de fato quente
Com todo o seu mormaço
E consequente desgaste

Que bravam as linhas que os abrigam
Soltos demais para obedecê-las

Dependentes demais para abandoná-las