doía pensar a possibilidade, contorcia o
corpo e se perdia premeditava o crime não havia um plano, era um esboço a ânsia
controlava o rosto, num disforme triste era uma tristeza de proporções cavalares não bastava o ato em si, mas o pesar de sua morte sabia que não cresceria, não
ganharia espaço, não ganharia nada com sorte, talvez desse daria tanto que
esgotaria, sucumbindo em si o pior era não conseguir executar o aborto o aborto
prematuro já era inviável, já era tarde pensava e pensava e por mais que
tentasse, por mais que quisesse sufocar, não conseguia o aborto falhara tudo se
expandia, projetando além da barreira da pele tudo inundava para dentro,
sufocava o choro, o desespero não havia espaço para nada então esvaziava e
permanecia vácuo
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Reflexo
Virava
o copo
A
procura do que prometera
Não encontrava
a proposta juramentada
Via
no espelho aquele infiel olhar
Que
quebrava copos, quebrava votos, quebrava o que tocava
Restava
estilhaços
Restava
Tão
somente restava que já não conhecia mais o verbo
domingo, 19 de janeiro de 2014
Cantiga
Fazia a tabuada dos se te...
Contava com os dedos
Recitava os nomes
E titulava todos como nenhum
Displicência
Não há porque não sorrir
Vem na calma da alma, um tamborzinho aqui
dentro
Dispensar, por um momento, os conceitos dos
modernos
Reconstruir um sujeito
Despojado de consciência
Talvez
Não
esperava tanta relevância em um pequeno gesto, mas a descobri ali, encostada tão
silenciosamente. Me surpreendeu sua falta de voz, tão singelo. Mas quando
percebi já era tarde, não tinha como voltar.
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Café
Rabiscava no canto do jornal, tão fugaz.
Faltava apenas vestir a camisa, mas era um fardo. Deu um último trago,
profundo, buscando sua masculinidade viril. Procurava se desprender daquele
sentimentalismo. Não devia ter abrido a carteira de couro marrom. Muito menos
descoberto a foto ali enterrada. Um segredo que sempre enterrava ali. Olhou
aquele rosto delicado, coçou a barba rala, respirou tão fundo quanto pode.
Pegou o isqueiro ao lado do café, acendeu, aproximou a foto. A covardia apagou
a chama. Guardou a foto, não suportava o seu olhar. Segurou o cigarro, a
masculinidade, último trago. Apagou no café velho.
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