segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Recortes

Meu pulso trazia o cheiro do seu beijo, ainda morno
Arrepiando a minha pele em seu oposto
O seu olhar maroto a me submeter

Sangrava calada, moída
A transbordar uns jorros fétidos

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Palavra silenciada

Nas palavras procuro qualquer desabafo
Mas as palavras não sabem ser confessionários
São metades abortadas
São caminho incompleto
E não dizem nada

Rito

Por vezes uma tristeza acariciava seu rosto, tocava sua pele, fechava seus olhos. Nessas horas puxava o ar, era toda ele e o liberava com o pesar de perder um filho, com o coração parado, a testa franzida.
Repetia o processo, uma espécie de rito ou refúgio doentio. Sofria com intensidade, poupava as lágrimas, mas expandia toda a tristeza para todo o corpo.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Flash

Rodava a cabeça em um movimento mal planejado, mal executado. Um movimento livre e meio doentio. Os cabelos se espalhavam por todos os lados. O corpo acompanhava aquele movimento insano. Os braços subiam desordenadamente, em ângulos brutos e as pernas marcavam aquele ritmo desengonçado. Até que passou e andou.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Dormência

Por entre os dedos finos escapava aquele pedaço de pano. Um tecido barato, que nos tempos de glória fora azul. As mãos não tentavam recuperá-lo, não se preocupavam em segurá-lo. Ele sentia as pontas dos dedos. O vento o dava forma. Seguia ao lado das pernas esbranquiçadas pelo inverno. Os dedos se abandonavam, paralisados. As bordas do pano se abriam, revelavam os fiapos. A luz do sol o flagrou naquela queda, se demorou nas remendas mal feitas. A linha vermelha ligava frouxamente as metades, os terços, os quartos. O chão empoeirado foi o berço. Ali se estendeu engruvinhado aquele pedaço de pano, sem vontade de se levantar.  

sexta-feira, 27 de junho de 2014

19:47

Doeu quando vi São Paulo pelo quadrado da sala. Simplesmente doeu, sem drama, sem lágrimas. Foi uma dor simples, pura, sem grandezas, que apenas queria ser lembrada.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Parapeito

Sua imagem forçava um espaço em minha cama, me atormentava na insônia, no sono. Atrapalhava com suspiros pretensiosos, rendendo o bom senso, alimentando a amargura. Corria de um lado para o outro da cama, enfrentando o tempo seco que se armava, que se esgueirava pela garganta.