Por vezes uma tristeza acariciava seu rosto, tocava sua pele, fechava seus olhos. Nessas horas puxava o ar, era toda ele e o liberava com o pesar de perder um filho, com o coração parado, a testa franzida.
Repetia o processo, uma espécie de rito ou refúgio doentio. Sofria com intensidade, poupava as lágrimas, mas expandia toda a tristeza para todo o corpo.
Rodava a cabeça em um movimento mal planejado,
mal executado. Um movimento livre e meio doentio. Os cabelos se espalhavam por
todos os lados. O corpo acompanhava aquele movimento insano. Os braços subiam
desordenadamente, em ângulos brutos e as pernas marcavam aquele ritmo
desengonçado. Até que passou e andou.
Por entre os dedos finos escapava aquele pedaço
de pano. Um tecido barato, que nos tempos de glória fora azul. As mãos não
tentavam recuperá-lo, não se preocupavam em segurá-lo. Ele sentia as pontas dos
dedos. O vento o dava forma. Seguia ao lado das pernas esbranquiçadas pelo
inverno. Os dedos se abandonavam, paralisados. As bordas do pano se abriam,
revelavam os fiapos. A luz do sol o flagrou naquela queda, se demorou nas
remendas mal feitas. A linha vermelha ligava frouxamente as metades, os terços,
os quartos. O chão empoeirado foi o berço. Ali se estendeu engruvinhado aquele
pedaço de pano, sem vontade de se levantar.
Doeu quando vi
São Paulo pelo quadrado da sala. Simplesmente doeu, sem drama, sem lágrimas. Foi
uma dor simples, pura, sem grandezas, que apenas queria ser lembrada.
Sua imagem forçava um espaço em minha cama,
me atormentava na insônia, no sono. Atrapalhava com suspiros pretensiosos,
rendendo o bom senso, alimentando a amargura. Corria de um lado para o outro da cama,
enfrentando o tempo seco que se armava, que se esgueirava pela garganta.