quinta-feira, 3 de julho de 2014

Flash

Rodava a cabeça em um movimento mal planejado, mal executado. Um movimento livre e meio doentio. Os cabelos se espalhavam por todos os lados. O corpo acompanhava aquele movimento insano. Os braços subiam desordenadamente, em ângulos brutos e as pernas marcavam aquele ritmo desengonçado. Até que passou e andou.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Dormência

Por entre os dedos finos escapava aquele pedaço de pano. Um tecido barato, que nos tempos de glória fora azul. As mãos não tentavam recuperá-lo, não se preocupavam em segurá-lo. Ele sentia as pontas dos dedos. O vento o dava forma. Seguia ao lado das pernas esbranquiçadas pelo inverno. Os dedos se abandonavam, paralisados. As bordas do pano se abriam, revelavam os fiapos. A luz do sol o flagrou naquela queda, se demorou nas remendas mal feitas. A linha vermelha ligava frouxamente as metades, os terços, os quartos. O chão empoeirado foi o berço. Ali se estendeu engruvinhado aquele pedaço de pano, sem vontade de se levantar.  

sexta-feira, 27 de junho de 2014

19:47

Doeu quando vi São Paulo pelo quadrado da sala. Simplesmente doeu, sem drama, sem lágrimas. Foi uma dor simples, pura, sem grandezas, que apenas queria ser lembrada.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Parapeito

Sua imagem forçava um espaço em minha cama, me atormentava na insônia, no sono. Atrapalhava com suspiros pretensiosos, rendendo o bom senso, alimentando a amargura. Corria de um lado para o outro da cama, enfrentando o tempo seco que se armava, que se esgueirava pela garganta. 

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Vazios

Queria dizer-te que meus lábios guardam os mais lindos versos que te fiz
Que são eles castos e aguardam por ti
Queria ter as palavrar para compor odes a teu nome
Descrever em tercetos o seu olhar
Mas ele nunca conheci


quinta-feira, 17 de abril de 2014

Soterrado

Novamente via os seus olhos no céu
Que se preparava para devorar a cidade
O ataque, como sempre, vinha de cima,
Com todo o seu peso marrom, marrom terra
A colocar tudo a baixo

Despindo qualquer vestígio de dia
Amargando o azul noturno
Soterrando qualquer suspiro
Seja de amor, seja de saudade


terça-feira, 8 de abril de 2014

Sweet

Pigarreou. O gim barato enroscava na garganta. Ainda estava dolorida. Se arrastou para o banheiro. Não dava tempo para banheira. Mas uma ducha fria bastava. O rímel já estava no fim. Um rosto fino, mal comido, encarava o espelho. Os olhos. Olhos dez anos mais velhos que a vida. Os olhos, mortos, guiavam o corpo já conhecido de muitos. O trago libertou os pensamentos. Suspirou. Não de saudades. Não de amores. De rotina. A amargura desceu com a ajuda do gim. O cabelo secara. Emoldurava o rosto com volume selvagem. Preciso retocar a raiz. Retocou o vermelho da boca para que outros pudessem tirar. Olhou o quarto. Vestiu o roupão de seda. O roupão de seda manchado. O lençol aguenta mais três. Duas batidas na porta. O próximo chegara. Abandonou as cinzas no pé da cama.