O que sentia na hora da revelação não
passava nada. A paralisia não permitia o pensar, apenas o respirar. O chão não
sumiu como esperava que o fizesse, mas alguma coisa morria. Morria como havia
esperado. E o velório não tardava a começar. Mas ninguém reconheceu a viúva,
não deram seus sentimentos. Celebravam uma vida alheia.
Não, ninguém vertera uma lágrima, nem ela
mesma. Não havia. Fora uma perda que apenas ela reconhecia. Conhecia. A hora da
revelação se alastrou até o ponteiro girar e girar e girar. Não sobrava nada,
apenas um passado nostálgico que não era o suficiente para morrer ou ser morto.
Não encarava o fim, mas uma suspensão. Um desvio na rotina e um sentimento
perdido.
doía pensar a possibilidade, contorcia o
corpo e se perdia premeditava o crime não havia um plano, era um esboço a ânsia
controlava o rosto, num disforme triste era uma tristeza de proporções cavalares não bastava o ato em si, mas o pesar de sua morte sabia que não cresceria, não
ganharia espaço, não ganharia nada com sorte, talvez desse daria tanto que
esgotaria, sucumbindo em si o pior era não conseguir executar o aborto o aborto
prematuro já era inviável, já era tarde pensava e pensava e por mais que
tentasse, por mais que quisesse sufocar, não conseguia o aborto falhara tudo se
expandia, projetando além da barreira da pele tudo inundava para dentro,
sufocava o choro, o desespero não havia espaço para nada então esvaziava e
permanecia vácuo