Rabiscava no canto do jornal, tão fugaz.
Faltava apenas vestir a camisa, mas era um fardo. Deu um último trago,
profundo, buscando sua masculinidade viril. Procurava se desprender daquele
sentimentalismo. Não devia ter abrido a carteira de couro marrom. Muito menos
descoberto a foto ali enterrada. Um segredo que sempre enterrava ali. Olhou
aquele rosto delicado, coçou a barba rala, respirou tão fundo quanto pode.
Pegou o isqueiro ao lado do café, acendeu, aproximou a foto. A covardia apagou
a chama. Guardou a foto, não suportava o seu olhar. Segurou o cigarro, a
masculinidade, último trago. Apagou no café velho.
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
P.P
Não é um
resfriamento, um endurecimento. Apenas um entendimento. Não, não me diga que soa
como amargura. Mas também, Florbela, não são sedas pálidas a arder. São pálidas
e só. Sem mistério ou encanto. Não trago versos nos lábios, trago-os bem nus. A
falta do desejo me esgota, inexpira, vai além-tédio, meu velho.
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Cada vez
mais os poetas portugueses me parecem certos
O desejo
permanece no inalcançável
Uma quimera
querida
Sua realização
não traz o mesmo encanto
Apenas o
desencanto
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Terço
Mais uma vez me enrolo
e nesses rolos te envolvo
entrelaço as mãos, os lábios
e num suspiro solto,
perco todos em orações
e nesses rolos te envolvo
entrelaço as mãos, os lábios
e num suspiro solto,
perco todos em orações
domingo, 20 de outubro de 2013
Sincronia
Eu não queria ele
queria o momento
viver ele plenamente
eu era o momento
e de alguma forma ele o integrava
e o momento não se estende
existe, apenas, no momento
queria o momento
viver ele plenamente
eu era o momento
e de alguma forma ele o integrava
e o momento não se estende
existe, apenas, no momento
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
Cardápio
Não
há poesia para hoje
Estamos
esgotados
Do
quê?
De
romances mal sucedidos
O café
forte também acabou
Temos
apenas uma água rala
Quase
acinzentada.
sábado, 5 de outubro de 2013
Compras
Cada vez mais tinha certeza do que queria. A calça verde havia deixado tudo mais claro. Ela trazia a verdade natural de sua simplicidade e conforto e servia tão bem com aquele momento. Falava do conforto da ausência de preocupações, da simples liberdade de ser responsável por apenas si mesma. Era a reviravolta da certeza do que não querer, do que escapar e fugir com toda a velocidade possível. Trazia aquele desmazelo e medo masculino ao ouvir falar de compromisso.
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